quinta-feira, 29 de julho de 2010

Air Blue: a companhia aérea mais simpática do mundo



Estou muito triste. Um avião da Air Blue colidiu em Margalla Hills. Cerca de 152 pessoas perderam suas vidas e, fico bege, porque uma delas poderia ter sido eu. É que não viajo mais com freqüência ao Paquistão. Mas era associada ao programa de milhagens dessa empresa.

Assim que soube da notícia liguei imediatamente para meus amigos pilotos da Pakistan International Airlines. Cada um deles conhecia algum tripulante ou passageiro no vôo. Estou em choque, ainda.

Uma das melhores memórias que guardo da Air Blue se passou em 2007, quando ainda não vivia em Dubai. Estava transitando em Dubai a caminho de Peshawar, no Paquistão. Cheguei nos Emirados Árabes com a KLM e seguiria viagem com essa empresa - já que era a única que emitia bilhetes online.

Fiz o check-in no terminal 2 do aeroporto de Dubai, praticamente um outro universo operado por linhas aéreas do Afeganistão, Paquistão, Irã e Iraque. Em dois anos e meio em Dubai nunca vi nenhuma mulher usando burqa no país. Mas elas estavam ali no embarque da Ariana, a decrépita empresa afegã. Só não vi cabras porque animais são proibidos no terminal.

O vôo sairia de Dubai de madrugada. Meu jet lag implorava por um café. Sentei-me em uma mesinha no Costa para deixar minha mochila e notei um grupo de comissárias que me olhavam, riam e cochichavam. Acho que além das funcionárias da ONU, das mulheres do exército americano e de meia dúzia de viajantes ocidentais malucas (seria eu uma delas?), mulher branca não era uma visão comum por ali.

Puxei papo (na verdade queria perguntar se estava cagada porque odeio ser observada, mas quem conhece o Paquistão direitinho sabe que nem sempre o povo te encara por maldade, ao contrário) e elas me convidaram a dividir a mesa com elas. Perguntaram-me de onde eu era, o que estava fazendo em Dubai, o que faria no Paquistão. Rebati com novas perguntas sobre como era ser comissária de bordo (eu ainda não era uma), qual o destino favorito delas, o que elas mais gostavam em nos Emirados.

Além de dicas preciosas sobre a cidade, ganhei um copo de capuccino que uma delas me comprou. Quando elas se levantaram para ir até a aeronave, cochicharam com o funcionário de terra e apontaram pra mim. Ganhei um upgrade! E nem cobraram meu excesso de bagagem - viajava com um case duro de um violão elétrico Takamine que o ex comprou em São Paulo e não teve como carregar.

Dentro do avião a sabatina continuou e ganhei um convite para jantar e conhecer a família de uma das meninas. Como uma recusa seria ofensa, prometi que iria e fui (e comi muuuuito e fui muito bem recebida). Ao chegarmos em Peshawar uma delas se voluntariou a caminhar comigo até as mãos do Saj. Passei pela imigração ao lado dela - que empurrava todos os homens para o lado para que eu passasse e não fosse assediada, busquei minha bagagem sem passar no raio-x (imagino as perguntas do customs vendo um case de guitarra recheado com sapatos) e fui entregue.

Minhas outras experiências com a Air Blue não foram piores. Uma vez embarquei com uma indigestão terrível após me entupir de mangas sob uma mangueira carregada no quintal da família. Como o vôo estava quase vazio, pedi autorização para a comissária para mudar de assento. Disse que estava me sentindo mal e ela mudou alguns passageiros de lugar para que eu me deitasse em uma fileira de três. Perguntou o que eu queria comer. Disse que não estava em condições de comer nada porque havia me esbaldado em mangas. Ela me olhou e suspirou "ohhh januuu!!!" (oh, querida!). E voltava de dez em dez minutos para saber se eu estava bem.

Também tive boas experiências com a PIA, mas a Air Blue sempre me soou mais simpática. A cortesia da tripulação eu nunca vi igual em nenhuma outra companhia aérea. Porque sentir-se especial, pra mim, não é comissário que vem me dizer olá porque leu na lista de passageiros que sou uma frequent flyer com uma caralhada de milhas. Odeio voar em empresas aéreas de grande prestígio onde o passageiro parece incomodar os tripulantes porque quer um café. Recentemente voei pela Etihad e senti medo de ir até a galley pedir um copo de água.

O que tenho a dizer é que sinto muito pela perda da Air Blue. Minhas sinceras condolências as famílias de passageiros e tripulantes do vôo ED 202. Esse foi o pior acidente aéreo da história da aviação civil paquistanesa. Se tiver que viajar ao Paquistão novamente, não terei medo de escolher essa companhia aérea.

4 comentários:

Container disse...

Também fiquei meio chateada com esse acidente, afinal deve ser muito difícil perder alguém assim, de repente.
Espero que as familias e amigos das vitimas encontrem um conforto necessário e tão complicado em uma hora dessas.

Gabriela Dória disse...

Menina, assim que soube da queda só você me veio à cabeça.
Que alívio ver vc postando.
Mas, que pena que a perda foi dolorosa para vc tbm...
Não comumente, me sinto tocada por essas tragédias como se eu conhecesse algum dos passageiros.
E esse realmente foi um susto, por lembrar da 'libanesa do blog'.

Que bom que vc está bem.
Meus sentimentos por sua tristeza.

Carol disse...

eh fiquei arrasada..

xx Samonte disse...

Também achei muito triste, principalmente porque pelo visto eles tiveram tempo suficiente de ver que havia algo errado, e provavelmente sabiam que estavam numa enrascada. Enfim, muita paz para todas as famílias nesta hora.
Ali.

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